Por que a IA concorda demais com você
O nome técnico é bajulação, e ela é mensurável. Num estudo da Anthropic de 2023, simplesmente perguntar "tem certeza?" fez assistentes abandonarem respostas corretas e adotarem erradas em até 86% dos casos.
Isso não é um defeito aleatório. Modelos são ajustados com notas dadas por pessoas, e pessoas tendem a dar nota melhor para respostas que concordam com elas. Treinar para agradar e treinar para acertar são objetivos diferentes, e quando eles divergem, é o primeiro que a nota recompensa.
Já deu problema de verdade
Em abril de 2025 a OpenAI reverteu uma atualização do ChatGPT que elogiava praticamente tudo — a própria empresa publicou o que tinha deixado passar. E em 2026 um estudo de Stanford publicado na Science mostrou que onze sistemas de inteligência artificial deram razão ao usuário 49% mais vezes do que humanos na mesma situação.
O estudo de Stanford vai além do incômodo: ele associa essa bajulação a menos disposição para agir de forma pró-social e a mais dependência do sistema. Uma máquina que sempre concorda não é só inútil como revisora — ela muda o julgamento de quem a consulta.
O que fazer na prática
- Não conte a sua opinião antes de pedir a análise: você está entregando a resposta que ela vai tentar agradar.
- Peça o contrário do que quer ouvir: "me mostra onde eu estou errado" rende mais que "o que você acha disso?".
- Desconfie da concordância rápida, principalmente depois de você insistir. Mudança de resposta sem argumento novo não é revisão, é cedência.
Fontes
- Anthropic — Towards Understanding Sycophancy in Language Models (2023)
- OpenAI — Expanding on what we missed with sycophancy (2025)
- Cheng et al., Science (2026) — Sycophantic AI decreases prosocial intentions and promotes dependence
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